terça-feira, 8 de março de 2011

O QUE TEMOS E O QUE QUEREMOS

Achei essa matéria interessante sobre o ponto de vista do que temos na escola e o que queremos e o que precisamos fazer para conseguir, não só esperar vir "de cima". Será que não temos recursos? Será que o que nos falta é um pouco de ousadia, de mudar algo?
Temos sim o livro didático, mas será que ele não é necessário, justamente para nos provocar uma mudança? Vamos olhar esse livro como um objeto a ser questionado e modificado, e não mais como um objeto de reprodução. Talvez, ai esteja o início de nossa inserção nas mídias.

Precisamos de “tanta” educação?


Walber Aguiar *

We Don’t need all education.



Menino, hoje tem aula, hora de levantar! Foi o grito da mãe naquela manhã quente de fevereiro. Muita preguiça, falta de costume, tempo livre demais, um saco ter que interromper tudo. Agora acabou a colônia de férias, a viagem para o sítio. Começa a correria do ano letivo, um período tido como opressor, a começar dos duzentos dias(vinte a mais) que em nada acrescentam.

Bruscamente o ano começa. O peso da responsabilidade entra na mochila nova, o compromisso com os pais e com o futuro incerto não faz da escola um jardim de delícias. Daí o fato da mesma oscilar entre o prazer da descoberta e o pesar da mesmice.

É momento de reproduzir os velhos métodos pedagógicos dos teóricos do século XX, especialistas em rachar fios de cabelo ao meio, como diria Nietzsche. Praticaremos a pedagogia centrada, voltada para o aluno? Usaremos as velhas desculpas: Professor ganha pouco. Não é valorizado. As escolas estão sucateadas. “Os alunos não querem nada”. “Vou fazer outro curso e mudar de profissão”.

Uma boa reflexão vem do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Ali se vê um educador preocupado não apenas com o utilitarismo determinista, com o lucro que salta dos livros (pergunte aos donos de escola), mas com a vida, com a questão vocacional, com aquilo que se faz por vontade, por desejo. É hora de rasgar, de queimar os livros didáticos cheios de definiçõezinhas e respostas prontas. Os manuais de Maria Januária e outros autores positivistas que não questionam, apenas vomitam conteúdos para que os alunos engulam o subproduto daquilo que os professores arremessam em seus cadernos frios e sem vida.

Educadores estão em falta. Eles são “como as velhas árvores. Possuem uma fase, um nome, uma estória a ser contada. Habitam um mundo em que o que vale é a relação que os liga aos alunos, sendo que cada aluno é uma entidade sui generis, portador de um nome, sofrendo tristezas e alimentando esperanças. E a educação é algo pra acontecer neste espaço invisível e denso que se estabelece a dois. O educador habita um mundo onde a interioridade faz a diferença, em que as pessoas se definem por suas visões, paixões e horizontes utópicos”. (Conversas com quem gosta de ensinar – Rubem Alves.Cortez Editora)

Por sua vez o professor é um funcionário da educação institucionalizada, daquela que se arvora em gerenciar sonhos, vocações, na ânsia de fabricar mais um robozinho da engrenagem educacional, do monstro que devora bocados substanciais do orçamento sem transformar quase nada à sua volta.

Para ser um lugar de aprendizado, não de paginação de conteúdos, para ser vista como a geografia de prazer e não de pesar, a escola deve deixar de ser o “mundinho” cheio de livros obsoletos e alunos desmotivados pela chatice metodológica que as grades curriculares apresentam. Nada de grades. Nada de armadilhas didáticas, nada de reducionismo intelectual cultuado sob a forma de método infalível. Nada de “coar o mosquito e engolir o camelo”. Nada de decorar fórmulas, de proibir bonés e outros adereços. O aluno não pode ficar fora da escola sob o pretexto de estar sem farda ou de usar chinelo.

Antes de ser aluno, ele é gente, sujeito às mesmas paixões e aos mesmos sentimentos que o professor e outros funcionários. A escola tem que se converter em lugar de alegria, de arte, de filosofia, de invenção, de criatividade, de menos repressão e mais liberdade. Deixem em paz o chiclete, o celular. Deixem o aluno falar. Também é preciso premiar os que nada escrevem, pois se não o fazem é porque a escola ainda não os encantou, ainda não mostrou a eles que da ludicidade nasce a poesia, o gesto, a beleza de ser sem ser fabricado.

O menino dormiu e foi pra escola. Sonhou que sua mãe o chamava, sonhou que a escola era um circo. Acordou mais disposto, mais leve, mais feliz...

* Poeta, professor de filosofia, historiador e membro da Academia Roraimense de Letras - wd.aguiar@gmail.com